Farmácias e armazenistas vão lucrar menos apesar da subida das margens
O novo pacote legislativo para o medicamento, que entra em vigor no próximo mês, vai conduzir a uma redução da facturação das farmácias, apesar de o Governo ter aumentado as margens de lucro para estes estabelecimentos. O mesmo vai acontecer com os armazenistas. Esta é uma das conclusões da avaliação do impacto das novas regras de preços e comparticipações feita pela consultora IMS, a que o “i” teve acesso. As alterações decididas pelo Executivo têm como objectivo reduzir o preço dos medicamentos e incentivar o consumo dos que apresentam preços mais baratos. Como os lucros das farmácias e dos armazenistas dependem directamente dos preços de venda ao público, serão afectados por estas descidas. «Provavelmente a reposição das margens antigas é uma compensação para que estes dois sectores não sejam penalizados com as mudanças», esclarece Hugo Mendes, da consultora internacional que faz recolha e análise do mercado farmacêutico. Ao mesmo tempo que reviu as comparticipações dadas aos utentes, o Governo decidiu voltar a repor as margens de lucro dos vendedores que vigoravam até 2005. Assim, as farmácias voltam a ter 20% de lucro sobre cada produto vendido, em vez dos actuais 18,25%. Se o preços dos medicamentos se mantivessem iguais, esta alteração reverteria num aumento do negócio. Mas, sempre que a descida do preço dos medicamentos for maior do que esta diferença de 1,75% - e o objectivo do Governo é que sejam muitos os medicamentos a sofrer baixas -, perderão dinheiro. Os medicamentos abaixo dos 15 euros são um exemplo. A partir do próximo mês, passam a estar sujeitos a baixas anuais sempre que forem mais caros do que o valor europeu que serve de comparador. Assim, «a farmácia e o armazenista podem efectivamente facturar menos, ainda que com margens superiores», refere a IMS. A mexida nas margens não tem implicações directas no dinheiro gasto pelos doentes (há um valor máximo que não pode ser ultrapassado), mas implicará perdas para a Indústria Farmacêutica, que será obrigada a baixar o preço de venda aos armazenistas. O curioso é que, se por um lado as farmácias perdem facturação com a redução de preços, essa baixa efectiva está dependente da sua colaboração. Além dos médicos, a IMS sublinha que o sucesso das medidas lançadas pelo Executivo também dependerá do farmacêutico. E, neste caso, na sua vontade de dispensar o produto mais barato. «Na verdade, o aconselhamento ao doente do medicamento mais barato (não somente genérico) vai ser crucial para potenciar o sucesso do novo pacote do medicamento», conclui a consultora. Certo é que estas mudanças põem em risco «as estimativas iniciais que apontavam para crescimentos ao ano de zero a 2% para a Indústria Farmacêutica», entre 2010 e 2013. Os mais afectados serão os laboratórios de medicamentos inovadores, já que todos os apoios extra foram pensados para os medicamentos mais baratos, genéricos ou de marca. E a comparticipação por valor fixo, assim como a redução em 30% do preço que serve de base de cálculo a este apoio. A IMS considera que a comparticipação por valor fixo e a baixa de 30% nos preços de referência são «as medidas mais disruptivas». O objectivo do Ministério da Saúde é pressionar a Indústria a baixar os preços: se se aproximarem dos valores da comparticipação (que passa a ser fixa), os doentes pagam menos ou recebem o produto gratuitamente, o que lhes confere uma vantagem concorrencial. Mas, se o mercado responder de acordo com os planos do Governo - e se aproximar dos valores da comparticipação - o sucesso da medida pode reverter contra o próprio Ministério da Saúde, alerta a consultora. Poupa com as comparticipações, mas pode ser obrigado a suportar uma grande fatia de medicamentos na totalidade. «Com base nesse ponto, poderá registar-se um aumento da procura [destes fármacos] que, em último caso, poderá inverter a tendência de poupança para o Estado», refere a IMS. |